Sepultura: “esse Brasil conservador começou a achar que pode ser desrespeitoso, homofóbico, xenofóbico”, diz Andreas Kisser

Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura, concedeu uma nova entrevista à Folha de São Paulo e, refletiu sobre os quarenta anos da banda que mostrou ao mundo que o Brasil também sabia fazer música pesada para gringo nenhum botar defeito.

Sobre o motivo que o levou a tomar a decisão de encerrar as atividades do Sepultura, o guitarrista declarou, conforme transcrição do site Be Geeker:

“Eu acho que não tem apenas um motivo. Tudo tem um fim, tudo tem ciclos, e é um privilégio poder tomar essa decisão consciente, em paz com nós mesmos. São quarenta anos de história, no melhor momento da banda, com um disco forte como o Quadra, sobrevivemos à uma pandemia… Não tem um fator externo, uma briga, ou alguma coisa que pudesse fazer a banda acabar. É um escolha nossa. Quem pode fazer isso? Pouca gente pode fazer a escolha de parar, de querer mudar de profissão ou de querer ter outros desafios, outras aventuras.”

Segundo o Andreas, o Sepultura ajudou a mostrar que o Heavy Metal está muito além dos estereótipos, e afirmou que gênero é inclusivo.

“Eu acho que o Sepultura ajudou muito a tirar esse estereótipo e mostrar que o heavy Metal é muito mais amplo. É o estilo mais popular do mundo, oitenta países é a prova disso.

O Heavy Metal é inclusivo, o Rob Halford do Judas Priest se declarou homossexual há pouco tempo e você não viu fã de metal queimar disco, fazer boicote – as mulheres têm uma representação fortíssima dentro do Heavy Metal.

E é incrível que que a gente tenha que falar disso, está na letra, não precisa falar disso. Eu não preciso reafirmar só porque as pessoas tem essa necessidade de ter ídolos, ou de ter uma reafirmação daquilo que elas acreditam, ‘Ah, eu preciso ouvir esse comentarista para ver isso mesmo’. E não confiam em si mesmas, confiam mais no comentário de um político, de um analista, do que em si mesmas.

A influência, essa coisa política, veio da própria música, dos punks principalmente, da letra punk, do Metallica, de colocar uma crítica social, de falar de sanidade mental, Fade To Black, coisas assim. Fala de suicídio, fala de coisa que a gente nem vê o quão popular isso é entre os jovens. Carandiru, que foi um absurdo aquilo, brutal, uma coisa que foi falada mundialmente. Muito por isso, de ter sido no Brasil, nós usamos esse tema para falar da brutalidade policial, da intolerância, respeitar diferenças, coisas que a gente vem lutando até hoje. Inclusão, respeito, diversidade, isso a gente sempre teve nas nossas letras.”

Andreas Kisser comentou sobre o processo político pelo qual o Brasil passou nos últimos anos e a “extrema direita” que mostrou a sua cara com a eleição de Bolsonaro. Segundo Andreas, muita gente saiu do armário.

“A gente passou por um processo dessa coisa de Bolsonaro e tudo, que muita gente saiu do armário. Esse Brasil conservador que sempre existiu, começou a achar que pode ficar falando do jeito que fala, ser desrespeitoso, ser homofóbico, xenofóbico, e etc.”

O guitarrista respondeu sobre um episódio em que o vocalista Derrick Green supostamente teria sofrido racismo por parte de uma gravadora.

“Nunca foi explícito. Mas é óbvio, né? Não precisa nem falar também. Um vocalista negro no heavy Metal que é uma coisa super rara, mas chega no Derrick e vai falar alguma coisa na frente dele, né? Galera que é racista é sempre muito covarde, sempre falando paralelamente, internet com pseudônimo…”

Sobre o legado do Sepultura, Andreas declara:

“Eu acho que legado que o Sepultura deixa é esse legado de que é possível, de uma banda brasileira fazer o som que a gente faz sem vender, sem mudar as características do som, a gente conquistou nosso caminho, nosso espaço. Tocamos de igual para igual com Metallica, Black Sabbath, Slayer, e até hoje nós estamos nesse circuito, e o legado é esse, tudo é possível. Tudo. principalmente o impossível [risos].

Assista ao vídeo:

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