Durante uma nova entrevista concedida ao Saladacast, a filha de Raul Seixas, Vivi Seixas, falou a respeito dos comentários (mitos) que ela considera injustos sobre sua mãe, Kika Seixas, ter “deixado” o Raul morrer. Vivi relata que a morte de Raul é muitas vezes atribuída a sua mãe, que não teria cuidado do músico e o teria abandonado. Até mesmo, a própria Vivi, que na época em que seu pai morreu era apenas uma criança, já foi acusada de ter abandonado o pai.
“Volta e meia a gente ouve as pessoas falando assim, ‘A Kika deixou o Raul Morrer sozinho’, ‘Raul morreu sozinho, pobre e abandonado’. Primeiro de tudo, a minha mãe não foi a última esposa do meu pai. A última esposa do meu pai foi a Lena, e ele também não estava mais com ela quando ele faleceu.
Todo mundo sabe que meu pai tinha um problema de alcoolismo, de dependência química e de álcool. Quando minha mãe conheceu ele, ela sabia que meu pai bebia, mas ela não tinha noção do quão grave era o problema. Meu pai bebia desde pequenininho, desde moleque; Então ela tentou muitas e muitas vezes, e ela sofreu muito com o alcoolismo do meu pai. Tentou muitas e muitas vezes internar ele. Acho que duas vezes ele foi por conta própria, e uma vez foi meio que à força.
E o meu pai dava sempre um jeito de sair da clínica. Ele nunca ficava. Então é muito difícil, só quem tem um alcóolatra e um dependente químico na família, sabe como é difícil, tanto para a pessoa quanto para quem convive com ela.
Então a responsabilidade que colocam na minha mãe, ‘abandonou o Raul’, ‘Deixou ele morrer sozinho’… A culpa, infelizmente, foi dele mesmo. Não tentou fazer um tratamento, não se manteve no tratamento, não foi a uma N.A, em um A.A, existem diversas ferramentas. Eu tenho muitos amigos dependentes químicos que hoje em dia estão há dez anos limpos, seis anos limpos… E, principalmente, tem que partir da pessoa. Não dá para chegar e internar a pessoa, tem que partir dela.”
Vivi relembrou um momento que viveu ao lado pai um mês antes do seu falecimento, e que a marcou:
“Ele escolheu o que ele queria fazer com a vida dele. Um mês antes do meu pai falecer, eu vim visitá-lo aqui em São Paulo, eu tinha oito aninhos. E eu lembro que a gente foi para uma padaria de manhã, eu, minha mãe e meu pai, andando de mãozinha dada, e quando chegamos na padaria, meu pai pediu um chopp, porque minha mãe pediu para ele não beber, porque ele gostava de tomar Vodka com suco de laranja para começar o dia. Minha mãe falou ‘Olha, a Vivi está aqui, pega leve’, então ele pediu um chopp.
E eu vi ele bebendo e eu chorei. Eu lembro disso como se fosse hoje. Ele falou pra mim, ‘Vivi, minha filha, por que você está chorando?’, e eu falei, ‘Porque eu não gosto que você beba, papai’. E você sabe o que ele falou pra mim? ‘Papai sabe o que está fazendo’. Então ele escolheu isso para ele.
Eu tenho aqui um trecho do livro da minha mãe falando, ‘Como sempre eu me entregava completamente à carreira dele, enquanto Raul parecia não dar à menor importância à qualquer coisa que não fosse a bebida. A cada internação os diagnósticos se tornavam piores, ele já tinha retirado parte do pâncreas, tinha diabetes, hipertensão e, com a continuidade do álcool, tudo era realmente muito preocupante. Mesmo assim consegui convencê-lo a se internar em uma clínica de reabilitação pela terceira vez, mas era inútil, porque ele sempre quebrava as promessas de parar de beber.’
Então ainda tem o meu pai falando aqui, quando ele estava dentro da clínica, ‘Isso está sendo negativo para mim, eu não aguento as palestras, nem as psicoterapias, é tudo repetição, os inventários, as regras, eu estou traumatizado. Tomei uma decisão justa ao meu favor, estou ficando sufocado. tenho A.A todas as noites, não estou assistindo nenhuma palestra’. Ou seja, ele não aguentava ficar lá dentro.”
Assista a entrevista completa:

