Paulo Miklos, vocalista dos Titãs, relembrou o lançamento da faixa “Bichos Escrotos” do clássico álbum “Cabeça Dinossauro” 1986, durante a ditadura e a expectativa da banda sobre uma possível censura da música. Além disso, ele falou sobre o cuidado que os Titãs sempre tiveram com as letras de suas músicas. Em uma participação no podcast PodSanta, Miklos disse:
“Toda a obra dos Titãs é tão rica na parte da letra, da mensagem, a gente tem um cuidado muito especial em como colocar as coisas mesmo quando elas são críticas, mesmo quando elas tentam desenhar uma realidade dura e difícil, elas são sempre muito cuidadosas em não ser panfletárias, cagar regra, chatas.”
Questionado se os Titãs sofreram muito com a ditadura, Miklos declarou:
“Nós não sofremos porque essa geração que nós estamos comentando aqui, foi aquela que realmente sofreu. Quando nós chegamos nos anos 80, nós entramos com o pé na porta. A censura, por exemplo, que foi um problema seríssimo vivido na cultura durante a ditadura, quando nós pensamos em lançar uma música como ‘Bichos Escrotos’, isso em 84, e nós já tínhamos essa música no disco ‘Sonífera Ilha’, nós falamos: ‘Não vamos lançar porque você viu o que acabou de acontecer?’ E isso aconteceu na época com o disco da Blitz, eles riscaram com prego o vinil. Cada vinil foi riscado com prego para não deixar as pessoas ouvirem aquela faixa. Então nós falamos: ‘Por que nós vamos lançar uma faixa que temos certeza que vai ser censurada e vão riscar com prego? Vamos guardar, e se um dia nós pudermos lançar, nós lançamos.
Em 1986, lançamos o disco ‘Cabeça Dinossauro’ e a música estava dentro desse disco, e as rádios, e uma rádio que tem um filme novo que se vocês estiverem ligados podem assistir que é ‘A Maldita’, a Fluminense FM lá do Rio de Janeiro, ela tocava as bandas novas e tal, e começaram a tocar essa música estranha de uma banda estranha chamada ‘Bichos Escrotos’ do tal dos Titãs. E as pessoas enlouqueceram: ‘Que música é essa? Toca de novo essa música!’ Os pedidos foram tantos que os caras pensaram: ‘Bom, quanto é a multa?’ Por que a censura não estava mais fechando, batendo, prendendo, torturando e matando por causa disso. Tinha uma multa. ‘Mas quanto é? Por que tem tantos pedidos, que sei lá, de repente eu pago a multa e toco [na rádio]’ Não sei quanto era, mas pagaram. E aí caiu no ridículo a censura, porque as pessoas começaram a pagar a multa para tocar, e aí o negócio caiu, enfim. A censura ficou em descrédito, virou uma bobagem e já era o finalzinho da ditadura, então nós não sofremos isso na pele, como sofreu essa geração anterior.”
