Lobão: “A única pessoa além de mim, como artista, que teve coragem de peitar o Rock in Rio foi a Anitta. Ela foi corajosa suficiente para falar mal”

Recentemente, o cantor Lobão concedeu entrevista à revista Veja para discutir sobre o Rock and Roll no Brasil nos dias atuais, sobre a polarização que dividiu a nação transformando a política em um verdadeiro Fla-Flu, e também relembrou sua participação no Rock in Rio de 1991 e os desafios que envolveram sua participação problemática no festival.

A seguinte observação foi feita durante a entrevista: “atualmente, rock não aparece entre os dez ritmos mais escutados em nosso país. Parafraseando seu disco de 1986, o rock errou?”

Lobão respondeu:

“Não é uma questão do rock. Eu faço rock muito bem e continuo fazendo. Eu acho que é uma conduta cultural e psicológica mesmo de um showbussiness que atrela o rock como um produto dos anos 1980, algo nafitalínico, mumificado e fossilizado. É museu de velhas velharias. Isso não é rock, é função de morte. Está virando uma coisa mórbida. Ano passado, eu fiz uma concessão com o meu show de 50 anos de Vida Bandida, um disco que eu não tenho muito apreço. E foi uma porcaria. O que mais fascina no rock é que ele é uma coisa viva e pulsante. Pedra que rola não cria limo.”

Ele acrescentou:

“Uma coisa que eu não tinha atentado é que os anos 1980 tiveram uma característica singular: eles inventaram a melopéia do rock brasileiro. Nos anos 1970, você teve alguns rasgos disso, com os Mutantes, com a Rita Lee e o Raul Seixas. O grande barato dos anos 1980 foi levar o rock para dentro do cancioneiro da música popular brasileira. Você pega as músicas do Renato e do Cazuza, todas elas soam naturais. Parece que o idioma finalmente casou e com beneplácito do próprio tempo a gente percebe isso. Com a distância, percebemos que se tornaram verdadeiros clássicos da música popular brasileira, não só do rock.”

Questionado sobre o porquê não participa de festivais de rock desde 1991, quando aconteceu o episódio antológico em que saiu do palco sob chuva de vaias e latinhas, ele disse:

“Estou me cag**** para isso. Eu acho até um insulto ser cogitado para participar desse festival. Quando um fã desavisado diz que sente falta de um show meu no Rock in Rio, eu acho um insulto. Enquanto eles tiverem uma filosofia de não apoiar as bandas brasileiras, eu me recuso. Enquanto eles tiverem uma filosofia de não apoiar as bandas brasileiras, eu me recuso. Aquilo foi um desrespeito. Mudaram meu palco faltando 24 horas para eu tocar. Eu tinha um contrato que eu teria 40 metros de boca de cena e 20 metros de profundidade. Eu sabia que teria animosidade e restringiram meu espaço no palco. Começaram a tacar coisas no palco e eu saí. Me disseram que se eu não quisesse fazer o show seria até melhor, porque o Guns N’ Roses queria entrar e eu estava atrasando. Ninguém iria acreditar em mim, porque eu era um drogado. Quando entrei no palco, me deram um capacete com uma cruz vermelha. O engraçado foi que eu havia feito aquele mesmo show um ano antes no Hollywood Rock e foi eleito pela crítica o melhor do festival. E eu concorri com Bob Dylan, Pretenders, Tears for Fears, Bon Jovi.”

Na edição de 2024 do Rock In Rio, algo semelhante aconteceu com a cantora Ludmilla, que ameaçou não se apresentar. Lobão comentou:

“Perceba que isso não acontece na Argentina com o Charly Garcia ou Fito Páez porque eles são patrimônios deles. Por que coisas assim acontece por aqui? Porque o empresariado tem essa mentalidade. Até 1985, o Brasil vivia um fenômeno em que as pessoas gostavam mais do Legião Urbana do que do Joy Division. Gostavam mais do Paralamas do Sucesso do que do The Police. O Rock in Rio foi um cadafalso que a gente subiu. Aquilo acabou com a dignidade do rock brasileiro. Que eu saiba, a única pessoa além de mim, como artista, que teve coragem de peitar o Rock in Rio foi a Anitta. Ninguém fala mais nada. Anitta foi corajosa suficiente para falar mal. Não sei qual artista foi catapultado para o sucesso depois de tocar num festival como esse. É feito para você pagar mico e te tratorizarem.”

Leia a entrevista completa: https://veja.abril.com.br/coluna/o-som-e-a-furia/sou-odiado-pela-esquerda-e-pela-direita-diz-lobao-sobre-politica

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