Massacration: “sempre nos preocupamos em não humilhar ninguém em específico”, diz Bruno Sutter sobre o humor ácido da banda

Bruno Sutter, humorista, ator, músico, compositor e vocalista do Massacration, conhecido também por seu trabalho com Hermes e Renato no começo de sua carreira, conversou recentemente com Raul Ferreira Netto, e discutiu sobre a forma de fazer humor nos dias de hoje, com a cartilha do politicamente correto sendo imposta a todos e em meio à ondas de cancelamento e fiscalização da arte.

Como se fazer entender e ainda conseguir produzir humor sem ser mal interpretado nos tempos atuais, principalmente quando se aborda temas considerados espinhosos em letras de músicas? Bruno Sutter refletiu sobre esta questão.

“Para fazer música com o Massacration, nós trabalhamos com muita tranquilidade, por que nós sempre nos preocupamos em não humilhar ninguém em específico.

Nós também sentamos na frente na escola, nunca fomos da turma do fundão que ficava zoando. Pelo contrário, nós éramos os que sofriam o bullying. Então nós entendemos, e nós entendíamos. Na época do Hermes e Renato, onde isso ainda era permissivo, nós fazíamos da nossa maneira; ao invés de hipersexualizar uma mulher e colocá-la em uma posição de fragilidade, nós nos vestíamos de mulher, sacou?

Nós não queríamos pegar, o Gugu, o Faustão ou o João Kléber e falar ‘esse é o…’ A gente pegava esse universo e transformava e sintetizava no Cláudio Ricardo, que era um apresentador de televisão muito louco que fazia um monte de coisas e tinha um pouco de cada, sabe?

Então a nossa intenção era rir junto. Às vezes fazíamos uma imitação ou outra, mas gostávamos de criar personagens em cima de coisas que já existiam. A ideia sempre foi rir junto com as pessoas para quem nós estamos fazendo o nosso trabalho. E com o Massacration é igual. Mas, mesmo assim, hoje em dia, nós tomamos muito mais cuidado para fazer as músicas para não entrar nessa seara do limite do humor.

Dá para fazer. Só que hoje em dia nós temos que pensar um pouco mais.”

Bruno acrescentou:

“As piadas do Hermes e Renato como um grupo sempre foram muito machistas, mas era o comum, sabe? Por isso quando vem essa ideia de cancelamento retroativo, eu acho uma puta de uma covardia.

Black Face, por exemplo, fizemos pra caralho! Mas nunca foi uma coisa que poxa, era um tabu. Nunca foi. Hoje em dia a gente não faria. Temos que nos adaptar à modernidade, mas isso não significa que a gente não pode mais fazer humor. Nós podemos fazer.”

Sutter usou como exemplo uma nova música do Massacration chamada “November Gay”:

“Tem uma música no novo disco do Massacration que se chama ‘November Gay’, que é a história do Detonator que ele vai casar com uma mulher trans, e vamos lançar o clipe dela em novembro.

E essa é uma música que é um dos maiores hits do disco. Mas a gente fez essa letra com muito cuidado para não bater em ninguém e, ao mesmo tempo, deixar a pessoa pensar ‘espera aí, ele está zoando ou ele está querendo conscientizar?’. É isso o que a gente quer deixar no ar. Porque o humor, ele sempre se baseou em um algoz e uma vítima. Eu sempre menciono esse exemplo, o mais pueril possível. O palhaço que dá uma tortada na cara de outro palhaço. Isso é o mais básico que vem na minha cabeça. O outro palhaço pode ter quebrado o nariz, o outro palhaço se fodeu. É a base do humor.

Então a gente tenta sempre manter um equilíbrio para que seja respeitoso. E a história é essa, o Detonator se separa da esposa para se casar com uma mulher trans, por quê? O Detonator não tem pau. Ele cortou o pinto dele para ter a voz aguda porque ele é castrati. Porque dentro da história da música e do heavy metal, isso se encontra pra cacete, porque na idade média existiam os Farinellis, os castratis, eles se sacrificavam em nome da música. Eles tinham os testículos extirpados para continuar falando fininho e não vir na adolescência a puberdade. Então eles continuavam para sempre com a voz hiperaguda. E no heavy metal, quanto mais agudo você canta, melhor é o vocalista. E que é um puta papo furado do caralho.

Então quando eu criei o Detonator, eu estudava a história da música. Eu falei ‘porra, o cara é o maior vocalista do mundo, e o cara cortou o pau’. E eu encontrei nessa história, porra, ela tem o que eu não tenho, ela me completa. Sacou? [risos]

É uma história de amor. Ele é muito apaixonado pela mulher que é trans porque ela tem o que ele não tem. É uma história de amor mesmo.

E aí quando você meio por alto, ‘caralho, puta que pariu! O cara fez uma música com travesti, putz, isso vai dar merda’. Então assim, nós falamos ‘vamos fazer’, porque o Massacration é isso. O Massacration e o Hermes e Renato é isso, o nosso humor é um humor ácido, é humor que gosta de esticar a corda, mas a gente não quer arrebentar a corda. E todo mundo entendeu. Tanto que já faz um mês que o disco lançado e nenhum setor LGBTQIa+ reclamou da música. Pelo contrário, o pessoal riu junto.

Então dá para fazer humor. É só você se preocupar em fazer humor para todo mundo. E dá para fazer.”

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