Regis Tadeu: “o endeusamento de Paul Di’Anno já começou. Um talento excepcional, mas foi embora da vida como um cover de si mesmo”

O crítico musical Regis Tadeu, falou a respeito do falecimento de Paul Di’Anno, ex-vocalista do Iron Maiden. Propondo uma “pequena reflexão”, sobre a carreira de Paul Di’Anno, Regis afirmou que os dois primeiros discos álbuns do Iron Maiden, estão no seu Top 5 da banda e entre os melhores álbuns de heavy metal de todos os tempos.

Entretanto, Regis abordou a “falta de profissionalismo” e as “decisões equivocadas”, além do comportamento “autodestrutivo” que fizeram com que o talentoso Di’Anno, se tornasse um “fracasso” após ser “chutado” do Iron Maiden. Segundo Regis, Di’Anno é o puro exemplo de alguém que poderia ter sido muito “maior” se ele mesmo não “autosabotasse” a sua carreira.

Acompanhe o trecho a seguir:

“Há décadas, o Paul Di’Anno se tornou um exemplo claro de como um talento excepcional, por que nos dois álbuns com o Iron Maiden ele foi um vocalista espetacular, assim como em vários vídeos de shows que ele fez com a banda, você via que ele tinha um carisma estratosférico e os cabelos curtos, que não tinha nada a ver com aqueles cabeludos da época e que deixava o Paul Di’Anno com o visual ainda mais punk, que era o que ele gostava… Acabou se autossabotando por conta de escolhas erradíssimas tanto do ponto de vista profissional, quanto nas suas questões pessoais. Desde o início, o Paul Di’Anno teve a habilidade de trazer uma energia crua e absurdamente visceral para as músicas do Iron Maiden e, evidentemente, capturava com precisão aquela essência quase punk que o heavy metal representava naquela época.

“Só que a carreira dele dentro da banda e depois que ele foi chutado de lá, acabou marcada por uma série de decisões totalmente equivocadas e questionáveis. E tudo agravado com a luta constante que ele tinha contra ele mesmo. Poderia ter sido uma carreira digna e com ótimos discos, como fez o seu substituto no Iron Maiden, Bruce Dickinson, e até mesmo o Blaze Bayley.

“Mas a carreira do paul Di’Anno acabou totalmente ofuscada e até mesmo substituída por uma vida repleta de excessos prejudiciais e uma espantosa falta de foco artístico. Um exemplo disso, é que tempos depois que ele saiu do Iron Maiden, ele vendeu os direitos das participações dele nas músicas que ele gravou com a banda, por irrisórios cinquenta mil dólares. Uma burrice da qual ele passou décadas arrependido, até o final da vida dele.

“E é impossível não pensar em como a história dele poderia ter sido diferente, porque ele tinha tudo para se tornar um ícone dentro do metal. Só que a resistência dele em se adaptar a um mínimo de profissionalismo na administração da própria carreira pós-Iron Maiden e, a entrega total que ele teve ao estilo de vida autodestrutivo, tudo isso acabou não somente por limitar o alcance de tudo o que ele fez pós-Iron Maiden, mas também lançar discos horríveis com bandas que não tinham nada a ver com ele.

“Tente ouvir, por exemplo, os pavorosos álbuns com a banda que levou o nome dele em 1984, os álbuns com o Battlezone, os dois discos horríveis que ele gravou com o Killers, o Murder One, e o Menace To Society, e aqueles dois discos que ele gravou como The Original Iron Men, os dois com outro integrante que foi chutado do Iron Maiden, o guitarrista Dennis Stratton, e vários outros trabalhos ridículos que ele reinterpretava as canções que ele gravou com o Iron Maiden, umas versões muito ruins.

“Ele vinha sofrendo com problemas de saúde há muito tempo, sem contar as confusões com as leis britânicas que, inclusive, levaram o cara a passar um bom tempo na cadeia em 2011..

“A lição que fica com o falecimento do Paul Di’Anno aos 66 anos, é muito clara: o talento por mais puro e genuíno que seja, pode ser facilmente desperdiçado se não for acompanhado de uma disciplina e de uma visão artística, além de um bom repertório e pessoas certas trabalhando juntas. O Paul Di’Anno foi um exemplo trágico do que NÃO fazer.

“Eu só quero deixar claro que o endeusamento que ocorre quando alguém famoso morre, já está acontecendo em relação ao Paul Di’Anno. Nada mais previsível, ainda mais porque aqueles discos que ele gravou com o Iron Maiden, ainda fazem parte da memória afetiva adolescente de um monte de gente com barba na cara. E mais claro do que isso, é o quanto alguém que poderia ter sido muito grande artisticamente, foi embora da vida como um cover de si mesmo. Isso é muito triste.”

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