Roger Moreira, vocalista e guitarrista do Ultraje a Rigor, conversou recentemente com o jornalista Carlos Tramontina no Flow News e, falou sobre a recuperação de Mingau, baixista do Ultraje que recebeu alta da U.T.I esta semana depois de um internado após ser baleado na cabeça em Paraty (RJ), em setembro de 2023.
Além disso, Roger comentou sobre arte e política, se roqueiro pode ser de direita ou de esquerda, se o politicamente asfixiou a liberdade de expressão nos dias atuais, e se ele não sente falta de cantar novas músicas visto que há muito tempo a banda não grava um novo material, sendo seu setlist composto apenas de sucessos do passado.
Acompanhe o trecho a seguir:
“O rock, desde a fundação lá nos anos 50, quando apareceu, era uma coisa divertida e era, claro, uma coisa de jovens, e ele continuou sendo ao longo dos anos. Mas, nos anos 60 ele virou uma coisa de protesto por causa da Guerra do Vietnam. Isso nos Estados Unidos, na Inglaterra continuou os Beatles, The Who, teve a invasão inglesa, os Stones… Nos anos 70 começou a ficar mais clássico, tinha uma mistura com jazz, com aquele coisa progressiva e tal, até que isso começou a ficar muito difícil para os jovens, e voltou a simplificar com o punk, com a new wave…
“Mas sempre foi uma coisa de expressão dos jovens. Mas a propaganda começou. ‘Olha, rock é isso, rock é ser rebelde, rock é usar uma jaqueta preta’, e começou a modificar de acordo com o que queria e, aqui no Brasil, mesmo quando a gente estourou nos anos 80, o rock foi uma exceção, porque o brasileiro gosta de samba, de swing, uma coisa mais maneira, mais dançante e tal. O tipo de rock que eu fazia e faço ainda , é mais voltado para a diversão, que é o que eu acho que é.
“O rock era rebelde por natureza, não é que ‘Ah, eu vou ser rebelde para ser rock’, não. Por que o jovem é assim, e eu tenho uma música que fala sobre isso, que é ‘Rebelde Sem Causa’, e o nome é tirado de um filme do James Dean, que fala disso, os pais dele tratam ele super bem [ o cara da música ] e ele se questiona, ‘Como é que eu vou crescer sem ter com o que me revoltar?’, e tudo o que ele quer os pais fazem. E ele tem essa época da juventude que ele precisa ser diferente dos pais.
“Enfim, é uma coisa do jovem quando ele começa a criar a sua identidade. Então é uma espécie de dança do acasalamento também pros homens que têm mais dificuldade de arrumar mulher, do que a mulher de arrumar homem. Então é uma explosão de testosterona, de liberdade, de tudo. E hoje em dia, o que faz isso, é o funk, o rap, essas coisas.
“Mas é um protesto diferente, de uma vida diferente, porque o rock da nossa época foi uma coisa de classe média, como foi nos Estados Unidos, porque lá todo mundo é classe média na verdade, na Inglaterra… Aqui que a gente tem essa miséria horrorosa. Eu tenho algumas coisas de protesto, mas eu sempre achei ruim você ser o dono da verdade, então a gente provoca, a gente implica, a gente propõe, digamos assim, mas sempre de uma maneira divertida.”
Tramontina o questionou sobre as polêmicas envolvendo ele e alguns artistas, incluindo o guitarrista do Ira!, Edgar Scandurra:
“O Scandurra reagiu, mas eu é quem estava reagindo ao Scandurra. Por que isso de não levar desaforo para casa eu aprendi em casa. ‘Fulano me bateu… bate de volta!’. ‘Te xingou? Xinga de volta!’.
“O Scandurra deu uma entrevista para o João Gordo e falou que eu sou a favor da tortura. Ele tirou isso não sei de onde, porque eu não sou a favor da tortura. Ele tirou isso dessas narrativas que a esquerda cria de dizer, ‘Ah, você está votando no Bolsonaro e o Bolsonaro é militar, então você é a favor da tortura’.
“Não. Nada a ver. Inclusive, se o regime militar não tivesse matado e torturado ninguém, seria difícil falar mal dele. Por que teve muito progresso naquela época, segurança, era diferente e tal. E não quer dizer que eu estou elogiando a ditadura, mas o cara mandou essa.
“O Edgar era um cara que já tinha a banda dele, mas não ganhava dinheiro, e nós começamos a ganhar dinheiro porque tocávamos em barzinhos fazendo cover, e ele era um cara bem humilde ou pobre, e eu ia buscá-lo na casa dele, ia levar. Até hoje ele ganha dinheiro com as músicas que ele fez para o Ultraje e que rendem dividendos.
“Eu fiquei puto. O cara era meu amigo, e vai falar uma merda dessa? Então eu falei. Depois teve o Nasi que também se queimou, veio me xingar, falou que ia quebrar minha cara, sabe? São umas coisas que… Eu digo, ‘As pessoas piraram?’.
Assista a entrevista completa com o vocalista do Ultraje a Rigor:
Relembre o clássico do rock nacional “Rebelde Sem Causa”:
