Durante uma nova entrevista ao Heavy Talk, a vocalista e baixista da Crypta, Fernanda Lira, relatou a terrível experiência que a banda passou no dia 31 de março de 2023, durante um festival no estado de Illinois, o teto do teatro onde a banda se apresentava, desabou após a passagem de um tornado, que também destruiu o veículo do grupo, e deixou uma vítima fatal e 28 pessoas feridas.
Após o tragédia, a Crypta soltou uma nota para confirmar que as meninas estavam seguras:
“Estamos vivas e seguras! Todas as bandas da tour estão seguras e bem! Obrigada pela preocupação! Um tornado passou em cima da casa de show assim que saímos do palco, perdemos nosso motorhome, mas estamos bem!”
Fernanda relembra os momentos que antecederam o desastre:
“É impossível descrever aquelas 24 horas em um ou dois minutos aqui. Foram algumas das horas mais aterrorizantes da minha vida, nós corremos risco de morte sim, mais de uma vez, primeiro por que quando o tornado estava se aproximando, a gente estava lá fora pegando nossas coisas de dentro da van, por que me falaram ‘pega os eletrônicos, pega as coisas que vocês precisam pra trampar’, e quando a gente saiu o tornado já estava ali, né?, e a gente não sabia por que você não consegue ver o desenho bonitinho, vira uma grande nuvem ali, né? A gente viu aquela tempestade se aproximando e falou ‘velho, fudeu’. E um puta vento ali e a Luana quase ficou pra trás, por que ela demorou um pouco mais e quando ela estava vindo, ela mal conseguia andar por causa do vento, o tour manager teve que puxar ela pra dentro e fechar a porta. E vários homens pra conseguir fechar a porta ali. Ali a gente já poderia ter morrido. O teto caiu. Quando o tornado atingiu, a gente tinha acabado de sair do palco, entre a gente sair do palco e tornado bater foram nove minutos. Eu tenho isso cronometrado por que eu tirei prints de algumas coisas ali, naturalmente, sem querer, enfim. então poderia ter acontecido com a gente no palco e teria sido um estrago não muito legal. Eu tinha certeza, a gente foi levado para o porão, e, assim, passou o tornado, apagou a luz, o teto tremendo, eu lembro só eu abraçando a Luana e vendo o pozinho cair do teto, igual a gente vê nos filmes, e ue falei, ‘velho, essa bosta vai cair na minha cabeça’, e eu lembro eu olhando pra Luana naquele desespero e falando ‘puta, foi uma vida massa até aqui, velho, eu curti, se tiver que ser aqui, foi’. E realmente, eu achei que a gente ia morrer ali.”
Fernanda prosseguiu relatando o que aconteceu logo após a passagem do tornado:
“E depois teve todo o pós que foi péssimo e as pessoas não tem a menor ideia, da gente ficar naquela coisa ‘e aí?’, volta a luz, ficou aquele silêncio, a gente ouve uns gritos abafados e a gente ainda não sabia o que tinha acontecido lá em cima. E gente começou a descer um fã ensanguentado dos pés à cabeça e desmaiou da escada, e a gente ‘caralho, fudeu, o que aconteceu? não sei o quê’. Então os meninos subiram e quando eles voltaram, eles falaram ‘gente, caiu o teto em cima da galera’. E foi uma sensação horrível, péssimo assim, e de descer uma fã com a cabeça aberta, e eu fazendo reiki nela lá, até chegar o bombeiro por que ela estava desesperada, ela com o celular explodido e falando ‘eu preciso ligar pra minha mãe, eu preciso ligar ligar pra minha mãe’, eu emprestei meu celular pra fã, ela ligou, conseguiu falar com a mãe, e ela me devolveu o celular e era uma capa de sangue. Então assim, sem contar outras coisas, o choque de quando a gente saiu e viu a van naquela estado, quem viu o vídeo sabe que é chocante, e agente com roupa de show no corpo, e estava um frio do caralho, e a gente com roupinha de show. E nossas ficaram lá e a gente não sabia se ia poder pegar por que o prédio foi condenado, não sabia se ia poder as coisas ou não, e no dia seguinte nevou, e agente sem roupa de frio, por que tudo estava dentro da van, eu fui no Walmart praticamente pelada, chegando lá todo mundo estava falando sobre isso, e aí que caiu a ficha e eu falei, ‘caralho, as pessoas estão falando sobre o que aconteceu com a gente’, e eles falando ‘parece que tocou uma banda e logo na sequência caiu o teto e morreu uma pessoa que não sei o quê’, e eu tipo, ‘eles estão falando sobre o que eu vivi’, e eu estava tão desconexa, tão no modo sobrevivência, e tipo, né? Eu fui lá comprar moletom, pra mim e pra Luana, que a Tainá foi mais cedo, comprou pra ela, pra Jéssica e pro Steban. E aí eu fui mais tarde e comprei pra mim e pra Lu, né? Uma caça de moletom, uma blusa quente, um tênis,e enfim, toda essa incerteza, e aí depois saber que um fã morreu, e ninguém tem ideia do que é saber que uma pessoa morreu no seu show. E eu espero que ninguém nunca tenha, por que é uma das piores sensações que eu já senti na minha vida. todo mundo sabe que eu toco olhnado no olho dos fãs, então eu ficava pensando e lembrava de todo mundo eu pensava ‘quem daquelas pessoas morreu, perdeu a vida no meu show?’. Sabe, é uma sensação horrível, e foi muita terapia pra lidar e isso foi, meu, lance do tornado, de ficar sem roupa, tudo na minha cabeça era resolvível, exceto esse lance do fã ter morrido. Na minha cabeça era tipo… acho que foi uma das piores coisas, um dos piores sentimentos saber que uma pessoa saiu da casa dela por que queria curtir o curtir o show, e aí ela morre, no seu show. Foi horrível. E saber que ele era a única pessoa que tinha comprado uma camiseta da Crypta antes do show começar por que ele queria apoiar desde o começo e quando acharam o corpo dele, ele estava com a camiseta da Crypta do lado corpo. Então são detalhes que a gente não falou por que não deu tempo, por que não sei, não cabia ali, mas foi muito mais profundo do que as pessoas sabem.”
Fernanda relatou as conta as dificuldades financeiras em que a banda se viu após a tragédia:
“Muita gente não sabe, mesmo a gente tendo prestado conta depois que não ficou nos 60 mil dólares que a gente conseguiu ali na vaquinha. A dívida ficou em 101 mil dólares, mais de meio milhão de reais. Então foi muito difícil, ali a banda quase quebrou, praticamente quebrou, de caixa, por que dali não entrou um dólar a mais no nosso bolso. A gente foi se recuperar financeiramente daquilo em janeiro desse ano, a banda, e pessoalmente falando, né? Enfim, não vou entrar nesse detalhe aqui, mas as pessoas falam muito e não sabem muito do que se passa na vida das pessoas, do artista, enfim, não sabe que não é só fazer vaquinha, resolveu e acabou. Não é bem assim que funciona. E o investimento? A gente tirou 6 mil dólares do nosso caixa para tirar visto e esse dinheiro era para ter voltado e não voltou. Seis mil dólares são quarenta mil reais, que saíram do caixa da banda e que a gente demorou quatro anos para construir, foi ali, sem contar o dinheiro de passagem que foi muito mais do que isso, e esse dinheiro nunca voltou pro caixa da banda, esse dinheiro nunca voltou pra gente. Então são muitas camadas que as pessoas não têm ideia. Foi muito traumático.”
Assista a entrevista completa:
